DL: Trabalhar para duas editoras estrangeiras da importância da Marvel Comics e da DC Comics, que são concorrentes, deve ter lhe proporcionado um ponto de vista mais abrangente como profissional. O que o marcou nessa experiência?
GT: Desenhar os personagens dessas editoras é desenhar os personagens que eu lia quando criança. Além disso, ainda os vejo no cinema hoje. Mas isso é pessoal, profissionalmente essas editoras são grandes vitrines. Se você pegar títulos de primeira linha então, seu trabalho fica exposto a uma enorme massa consumidora de HQ – não só nos EUA, mas em muitos outros países, dentre eles o Brasil.
A Marvel e a DC são empresas diferentes, que possuem visões e formas de lidar com o mercado e mesmo com seus profissionais de maneira diferente. Mas a maior experiência profissional foi trabalhar com os grandes títulos, pois a cobrança é maior. Logo, você passa a olhar de maneira mais profissional para o seu trabalho.
DL: O fato de você não se orgulhar dos trabalhos que desenvolveu para o mercado publicitário deve-se a quê?
GT: Trabalhar para agências de publicidade e escritórios de arquitetura foi uma etapa importante no amadurecimento do meu desenho para ofício. Transformar sua habilidade em algo rentável, muda um tanto a forma de ver o seu desenho. No mercado publicitário, o seu trabalho é produzir, mas raramente criar. A cabeça criativa não é sua e o reconhecimento do trabalho só traz mais trabalho árduo e noites varadas por “jobs” urgentes e alterações. Depois de anos fazendo storyboards, layouts e perspectivas artísticas, senti vontade de passar para uma nova etapa profissional.
DL: O que você considera importante fazer para conquistar novos leitores de HQ no Brasil? E que realidade você consegue enxergar para esse mercado, em um futuro próximo?
GT: Existem diversos modos de conquistar novos leitores, mas muitos visam um modismo passageiro, algo de resultado mais imediato. A longo prazo, a educação e a cultura são os elementos mais importantes para criar novos leitores: de livros, HQs, jornais... Antes de colher, temos de plantar. No caso, o hábito da leitura.
Acredito que quando tivermos esse hábito, todo o resto virá, quase que naturalmente. Isso inclui a elevação do status dos quadrinhos a um patamar de arte.
DL: Qual a sua opinião sobre o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), do Ministério da Educação, que incentiva o hábito da leitura nas escolas públicas? Desde que foi criado, em 1997, o programa vem se modificando e se adequando à realidade e às necessidades educacionais, de acordo com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. A inclusão das histórias em quadrinhos no acervo distribuído às escolas significa uma chance para novos processos de aprendizagem, não?
GT: Com certeza. Afinal, existem alunos e existem estudantes. O aluno é aluno enquanto estiver dentro da instituição acadêmica; fora, deixa de ser aluno. Mas o estudante é estudante sempre – dentro ou fora. O estudante vai ler, pesquisar e produzir quase intuitivamente. Quanto mais focados em transformar nossos alunos em estudantes tivermos, mais leitores teremos. E acredito que os quadrinhos são uma das ferramentas de grande importância para incentivar o hábito da leitura.
DL: Os trabalhos feitos a "várias mãos", quando profissionais de outros Estados/países trabalham em conjunto, é um exemplo da nova realidade proporcionada pelo computador/internet. De que forma você tem usado essa nova ferramenta a seu favor?
GT: Envio páginas para aprovação para os editores em Nova York diariamente e recebo as respostas em poucos minutos. Recebo os roteiros por e-mail e a tradução logo depois. Falo com o roteirista em Tokyo e agradeço o arte-finalista pelo cuidado, em Tampa, na Flórida. Tudo isso morando no interior de São Paulo. Acho isso mágico, vocês não?
DL: Muita gente ainda desconhece o potencial dos quadrinhos. Então eu lhe pergunto: por que ler HQ? E para os empresários, por que investir em HQ?
GT: E eu pergunto: por que não ler? Aqui entramos em um enorme campo minado de interesses. Para você ler você precisa estar interessado em ler, interessado no tema, no formato, na mídia... Sem interesse não há porque ler. O mesmo serve para o empresário: ele tem de estar interessado em investir.
Por isso eu retornei a pergunta. Porque, enquanto não tivermos empresários que queiram produzir quadrinhos que interessem aos leitores, nos mais diversos assuntos, perderemos muitos investimentos interessantes a cada dia.
O Japão é um exemplo, com o mangá e o animé. Cultura, arte e mercado andam juntos. Uma indústria do entretenimento com milhares de leitores de todos os gêneros, que consomem quadrinhos, filmes, livros, animações, bonecos e uma infinidade de outros produtos em uma interessante troca de investimentos e retorno nas mais diversas áreas, não só nas HQs. |
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