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SETEMBRO /2007 por Milena Oliveira Cruz

 

O conquistador

Surpreendente, encantador, incrível, enriquecedor... Esses são alguns dos adjetivos conferidos aos trabalhos do animador Carlos Eduardo Nogueira. Com uma carreira repleta de prêmios, conquista a crítica por onde passa e tem sido considerado uma das gratas surpresas da animação no Brasil.
“Fazer um bom filme de animação depende de outras qualidades que não só a de animador”, diz Eduardo, em entrevista ao Desenho Livre.

 

Carlos Eduardo Nogueira
Animador

 

DL: Quais são os seus últimos projetos?
CARLOS EDUARDO: Em termos de projeto eu terminei a carreira nacional do meu último filme – Yansan. Vou iniciar a carreira nacional de um outro trabalho, que está em fase final de produção. Em paralelo dou aula em uma pós de computação gráfica do Senac da Vila Romana e também no curso de Design da ESPM. Lecionar é uma experiência enriquecedora.

DL: Pode-se dizer que a sua geração foi a vanguarda da animação brasileira, visto que existiam poucos lugares onde pudesse buscar conhecimento – o que de certa forma ainda acontece. Em relação à animação, com o que os seus alunos podem contar hoje e o que ainda falta?
CARLOS EDUARDO: Apesar de já ter mudado bastante, a animação no Brasil ainda refere-se muito a aprendizado autodidata, principalmente com o advento dos computadores.  Ainda que os mais puristas digam que o bacana é aprender no papel, a animação é um conceito maior que isso – e que também pode ser aplicado no computador.

Quando falávamos de animação na minha época de estudante, falávamos basicamente de software 3D. Hoje isso mudou e temos muitos softwares de animação. Muita coisa dá para ter em casa, sendo possível criar trabalhos espetaculares. Boa parte da formação do animador vem da experiência de fuçar em casa. A bibliografia é sempre muito restrita e complica o fato de ser quase inexistente no Brasil a composição de um corpo docente especializado.

Por exemplo, o curso de Design da ESPM não é um curso superior de animação, mas um curso de Design que, por acaso, tem uma disciplina vinculada à animação. Por isso, mais do que trabalhar questões específicas, prefiro desenvolver aulas práticas. Geralmente trabalho um mês e meio com conceitos básicos de animação e recomendo algumas bibliografias, mas a questão principal é tentar fazer para ver o que acontece.
Nosso conhecimento ainda é muito fragmentado. Muita gente sabe animar, mas é preciso ter a mesma noção de como construir um bom roteiro, por exemplo. Às vezes o profissional tem um bom roteiro, mas não sabe adaptá-lo para a linguagem que o filme exige; ou ainda tem dificuldade em trabalhar com time... Enfim, para fazer um bom filme de animação, é preciso ter qualidades que não só a de animador.

DL: De que forma você reflete com os seus alunos a relação com o mercado de trabalho?
CARLOS EDUARDO: É importante refletir sobre o seguinte ponto: queremos formar operários da produção de animação ou cabeças criativas que irão desenvolver bons trabalhos? Formar alunos é propor desafios que vão além do ensino da faculdade, e que não necessariamente tenham o aval mercadológico.
A faculdade é uma simulação e vale a pena propor algo que os alunos precisem “quebrar a cabeça” para fazer acontecer.

DL: Pelo que vi até hoje, muitos animadores começam com um trabalho descompromissado – no bom sentido – e ganham um ou mais prêmios que lhe dão suporte para a realização de novas produções. Qual foi o seu caso? Que importância os prêmios e patrocínios tiveram na sua carreira? Algum projeto teria deixado de ser realizado?
CARLOS EDUARDO: Quando você é jovem, um prêmio é importante pela questão do reconhecimento. O primeiro filme que fiz foi Necro Concreto #1, em 96. Era algo muito simples, que hoje nem mostro para as pessoas. A tecnologia era ainda muito incipiente. Naquela época a USP tinha um concurso interno de obras, que eles chamavam de Prêmio Nascente. Acabei ganhando esse prêmio e na época interpretei da seguinte forma: “Olha, não estamos dizendo que o seu trabalho está perfeito, mas acreditamos no seu potencial.” Não achava aquele trabalho bom, mas ser jovem e entender as coisas dessa maneira me impulsionou a melhorar.

Fiz muita coisa sem dinheiro, como muita gente. Porém, uma hora você quer continuar, mas precisa se sustentar. É aí que entram os editais. Já fiz dois filmes por meio deles. O primeiro foi Desirella, com investimento da Petrobras; e o segundo, Yansan, com verba da Secretaria da Cultura. Agora estou desenvolvendo um outro trabalho, novamente com investimento da Petrobras.

Claro, não dá para dizer que pelo simples fato de um filme ter dinheiro é melhor. Desirella e Yansan fizeram carreira e indubitavelmente foram meus filmes mais bem-sucedidos em termos de reconhecimento nacional e internacional. Dinheiro significa a oportunidade de ter mais tempo dedicado ao trabalho – o que consequentemente permite um acabamento melhor –, além da possibilidade de pagar mais justamente os profissionais que trabalham com você...  Mas vemos muitos filmes patrocinados que são horrorosos. O que eu acho importante dizer para as pessoas que estão começando a trabalhar com audiovisual, de uma maneira geral, é que as premiações existem, mas para continuar ganhando prêmios é preciso ter o mínimo de carreira, as pessoas precisam conhecer o seu trabalho e saber do seu potencial de realização. Todos os animadores que eu conheço um dia realizaram produções sem dinheiro, aprenderam com isso e depois foram atrás de investimento. Hoje tem uma molecada que não se dispõe a realizar um trabalho se não tiver grana. É uma pena, porque a época de estudante é o momento de tentar, é quando ninguém aponta o dedo diante de um erro.

DL: E o caso de “Luiza vai para o inferno”, que foi muito reconhecido, houve algum patrocínio?
CARLOS EDUARDO: Luiza foi um trabalho que fiz sem dinheiro nenhum, quando já estava formado e trabalhava como pesquisador na USP. Depois a oportunidade de continuar a pesquisar acabou e eu não queria trabalhar com publicidade. Tinha um dinheiro guardado, fiquei uns três meses em casa e resolvi aprender Flash. Não sei se não acreditei muito no potencial do filme... Até ganhei alguns prêmios, foi um trabalho muito visto, mas depois de um tempo voltei a fazer as pesquisas na USP. Queria fazer um filme longo e deixei de cuidar da carreira de Luiza vai para o inferno. Não enviei para lugar nenhum, o que foi um erro na minha opinião. É um filme interessante, todo mundo que assiste gosta. Mas agora já é antigo, não tem mais por que divulgá-lo por aí.

DL: É uma percepção particular, mas considero os animadores, de uma forma geral, muito “sarristas”. Muitas animações fazem sucesso justamente por essa maneira de interpretar as coisas. Os seus textos, por exemplo, também deixam transparecer essa característica...
CARLOS EDUARDO: Talvez isso realmente esteja nos textos, mas não estão nos meus trabalhos. Aliás, foi algo pelo qual sempre batalhei: não fazer animação de humor. Isso não me impede de em um momento ou outro apresentar algo “mais leve”, mas em muitos momentos minhas animações são “pesadas”, sérias, o que hoje em dia é um pouco mais aceito. Alguns animadores são bem sarristas, não há a menor dúvida, mas não é o meu caso. Não acho que tenha veia humorística para fazer animação.

DL: Tão interessante quanto ver um trabalho concluído, é saber das histórias que deram origem a elas. O que você pode nos contar de interessante nesse sentido?
CARLOS EDUARDO: Yansan, por exemplo, conta a história de uma orixá, mostrada como uma história japonesa. Lembro-me bem do momento em que essa idéia se formou em minha cabeça. Eu sempre questionei as histórias de mitologia, que têm de ter um fundamento que converse com você hoje, 2000 anos depois. Ou seja, tudo aquilo, de alguma maneira é adaptado para a sua realidade. Ao mesmo tempo eu já tinha lido alguns livros sobre mitologia africana e coincidiu que no mesmo período estava estudando sozinho japonês. Nessa época tinha um edital da Petrobras que eu queria muito participar com um projeto novo, mas estava completamente sem idéia. E eu não gosto de “forçar a barra”, penso que você só deve inscrever uma idéia quando acreditar nela – e eu não tinha nenhuma idéia na qual acreditava. Em uma noite de insônia, fiquei um tempão olhando para o teto. Fui juntando as coisas na minha cabeça e saiu Yansan, filme que está indo super bem.

 

Dicas

Independente de ser ou não professor, animação é um tipo de trabalho que você não vai encontrar um livro dizendo: “Isso que você fez está certo”. Mesmo porque o certo não existe. A experiência de tentar criar e ver o que sai, no fundo é o que mais vale.

 

Tem de ser persistente, inclusive por ser um trabalho muito demorado, que só vai lhe dar resposta após uns seis meses. Para quem está começando, acho que a pior fase é controlar a ansiedade e conseguir desenvolver o projeto até o fim – seja uma pequena experiência ou um filme longo.

  Muita gente desiste porque não acredita que vai dar certo. Uma maneira de combater a descrença é ver o que as outras pessoas estão fazendo ou já fizeram. É bom assistir filmes, ser curioso, fuçar, tentar fazer. Animação é muito trabalhosa, mas é gratificante.