Design
Gráfico Experimental para texto dramático “Dorotéia” de Nelson Rodrigues
Por Juliana Silva Carvalho |
jubis_sc@hotmail.com
Sob orientação da Mestre Zuleica Schincariol
Universidade
Presbiteriana Mackenzie |
| |
Resumo
O projeto gráfico editorial experimental para o texto “Dorotéia” de Nelson Rodrigues propõe interpretação gráfica do conteúdo dramático, partindo de procedimento análogo ao das encenações teatrais. Articulando elementos textuais e não textuais, com forte presença de recursos de expressão tipográfica, considerando a fisicalidade do objeto gráfico, busca-se responder à possibilidade de transmitir aspectos da dramaticidade teatral – atmosferas, ritmos, sonoridades - pelo livro.
|
|
|
| |
|
Primeiro Ato |
Abrem-se as cortinas...
A montagem teatral trata o seu espectador como cúmplice direto, porque ele presencia, em tempo real, o fato que ocorre no palco. O espectador se emociona a cada interpretação do texto ou do subtexto, sendo este último o que torna a interação do teatro, com o espectador, mais rica e incomparável, pois o texto não dito é uma segunda linha de interpretação que converge em direção do texto dito quando o ápice da peça acontece. Além disso, esta segunda linha de interpretação torna-se o segredo, a máscara que esconde toda a trama e atrai a sua atenção.
Neste ponto, pergunta-se: É possível transmitir as nuanças da dramaticidade teatral para um livro transformando suas sutilezas em outra forma de expressão?
O livro, para manter a vivacidade do teatro, pode trabalhar com conceitos de flexibilidade, ritmo e dinâmica, aplicada sobre a composição tipográfica, as ilustrações e os elementos de interação com o leitor, como por exemplo, um corte revelando um elemento surpresa que dá margem a uma interpretação subentendida. Estas novas interferências podem aproximar o texto falado e todos os seus elementos tridimensionais (cenográficos) ao texto escrito, e sua condição bidimensional torna o texto mais atrativo e singular. E é a partir desta relação - texto dramático e montagem teatral - que o editorial experimental estará embasado.
Robert Massin experimentou essa relação em um projeto, realizado em 1964, para o texto “A Cantora Careca”, obra do teatro do absurdo escrita por Eugène Ionesco, onde o design de tipos específicos dá voz a cada personagem. Variações de peso, corpo, inclinação, largura, distorções traduzem entonações, ritmos dos diálogos, emoções. Entre as páginas duplas, a configuração dos elementos gráficos traz o movimento, a espacialidade e o tempo da encenação teatral. A criação gráfica parte da peça dramática concretizada no palco, da qual Robert Massin foi espectador atento e assíduo, no caso deste projeto o ponto inicial é o texto original de Nelson Rodrigues, a ser analisado e interpretado.
A pergunta enunciada acima propõe a questão da mediação presente na materialização do texto, discutida por pesquisadores da história da literatura, como Roger Chartier:
Os textos não existem fora dos suportes materiais (sejam eles quais forem) de que são veículos. Contra a abstração dos textos, é preciso lembrar que as formas que permitem sua leitura, sua audição ou sua visão participam profundamente da construção de seus significados. O “mesmo” texto, fixado em letras, não é o “mesmo”, caso mudem os dispositivos de sua escrita e de sua comunicação. (CARTIER, p. 61-62)
Gruszynski (2000) traz essa discussão para o trabalho do designer gráfico editorial. Identifica dois extremos: a mediação invisível ou transparente e a mediação visível ou a co-autoria. A mediação invisível restringe a interferência do designer ao transmitir a mensagem do autor. O projeto gráfico é guiado por princípios funcionalistas, deve caracterizar-se como mediador neutro entre leitor e autor do texto, seguindo as regras de máxima legibilidade. Na co-autoria a intervenção e a contribuição do designer gráfico aparece com a possibilidade de reinterpretar a mensagem e assim transmitir “um sentido próprio que influi sobre o leitor” (GRUSYNSKI, 2000, p.10-11), instigando-o a decifrar o texto. É preciso dizer que ambos são parâmetros importantes para o designer gráfico, pois para cada projeto há uma mediação adequada a sua comunicação final.
O projeto apresenta uma nova interpretação para o texto dramático Dorotéia de Nelson Rodrigues, propondo uma atuação visível do designer para provocar o leitor sem apontar a saída, mas sim, fazer com que ele interaja com o texto decifrando-o até chegar ao seu desfecho.
Além das pesquisas relacionadas à tipografia e a articulação entre os elementos textuais e não textuais, está presente a preocupação com os suportes que compõem o livro, compreendido como “objeto comunicante” (MUNARI, 1998, p.220-227).
É importante dizer que a idéia deste projeto surgiu após a elaboração do espaço cenográfico para a mesma peça, como um exercício da disciplina de laboratório experimental. Os estudos e a maquete, desenvolvidos para a criação do espaço cênico, ilustram este livro o que enfatiza, ainda mais, a ligação: texto dramático e montagem teatral.
Apagam-se as luzes. Abrem-se as cortinas...
|
|
| |
|
Segundo Ato |
Dorotéia por Trás da Máscara
Dorotéia de
Nelson Rodrigues é a história de uma jovem de “rosto belo e nu, veste-se de
vermelho, como as profissionais do amor, no princípio do século”, esta é
Dorotéia e é assim que o autor a apresenta ao espectador.
Além de
Dorotéia, existem mais cinco personagens nesta história, elas são: D. Flávia,
Maura, Carmelita, Das Dores e D. Assunta D’Abadia.
Mas, ao contrário de Dorotéia, todas usam máscaras hediondas. As quatro
primeiras personagens são suas primas e com exceção de Das Dores, que veste
branco, todas estão de luto, num vestido longo e casto para esconder qualquer
curva feminina.
A trama começa quando Dorotéia, após
a morte de seu filho, decide reencontrar suas primas para libertar-se de sua
beleza e, conseqüentemente, da visão de um jarro que a perseguia. A presença de
Dorotéia causa nas primas uma sensação de asco, repulsa e constrangimento e a
partir disso o conflito desenvolve-se para culminar em um desfecho inesperado.
“Uma farsa irresponsável” (RODRIGUES
apud PASSOS et al., 1999, p. 134) e pertencente ao ciclo das denominadas peças
“desagradáveis”, assim Nelson Rodrigues definiria a sua obra mais imaginativa e
controversa, distribuída em três atos, no entanto, com uma única unidade de
tempo e espaço, apresenta um paradoxo do grotesco ao lírico, podendo variar ou
mesclar o trágico e o cômico provocando, respectivamente, sentimentos como
angústia e risos no espectador.
É um texto feminino que trata de
questões inquietantes da nossa sociedade, como a sexualidade e o casamento.
Nelson Rodrigues usa o teatro como um espaço de denúncia contra a cultura
imposta e a religião. Contudo, ao denunciar, o autor usa o simbolismo e o
surrealismo como artifícios, tornando o texto mais ameno e imaginativo, se comparado
a seus outros escritos.
As primas, D. Flávia, Carmelita, Maura e Das Dores, e todas as mulheres
da família de Dorotéia sofrem de uma maldição desde que sua bisavó casou-se com
o homem que não amava, esta traição ao amor verdadeiro acarretou em uma
maldição transmitida de mãe para filha. A maldição diz que, durante a noite de
núpcias, todas perdem os seus maridos, ou melhor, estes apodrecem e desaparecem
como puro encanto, além disso, nesta mesma noite, sentem uma forte náusea.
Outra característica presente nestas personagens é o fato de nenhuma
enxergar a figura masculina, com exceção de Dorotéia. Segundo Lacan,
“imaginariamente, o olhar do outro é indispensável, porque necessário à
cumplicidade. Tornar-se objeto do desejo exige o olhar alheio”. (LACAN
apud PASSOS et al., 1999, p 138).
As mulheres de nossa
família têm um defeito visual que as impede de ver homem... (frenética). E
aquela que não tiver esse defeito será para sempre maldita... e terá todas as
insônias... (novo tom) Nós nos casamos com um marido invisível... (RODRIGUES,
1993, p. 201)
Essas mulheres nunca dormem para nunca sonharem, pois, evitando o sonho
os seus desejos reprimidos não são revelados, assim vivem em uma vigília
constante e passam o dia rezando, segundo Freud: “O sonho manifesto que
conhecem no adulto graças à recordação pode então ser descrito como uma
realização velada de desejos reprimidos”. (FREUD, 1909, p 34)
D. Flávia (dogmática) (sinistra e ameaçadora) Porque
é no quarto que a carne e alma se perdem!... Esta casa só tem salas e nenhum
quarto, nenhum leito... Só nos deitamos no chão frio do assoalho...
Carmelita (sob a proteção do leque) – E nem
dormimos...
Maura (num lamento) – Nunca
dormimos...
D. Flávia (dolorosa) – Velamos sempre... Para que a
alma e a carne não sonhem... (RODRIGUES, 1993, p 206)
Das Dores, filha de D. Flávia, ao contrário de suas primas não veste
luto, pois, está noiva. Mas, para a surpresa do espectador, Das Dores é uma
personagem não-nascida. Como assim? Das Dores nasceu de cinco meses morta, no
entanto, sua mãe nunca a avisou de sua morte, pois, ela não poderia morrer sem
sentir a náusea, com isso, sem saber, Das Dores continua a viver.
No decorrer da peça, o espectador se depara com duas personagens um
pouco incomuns: um jarro e um par de botas. O jarro aparece repetidas vezes
para atormentar Dorotéia nos momentos em que o seu desejo está latente, é o
símbolo do desejo, do útero e, além disso, está associado aos jarros de limpeza
íntima do corpo. A outra personagem é um par de botinas, símbolo da figura
masculina, que ao entrar em cena estão desabotoadas o que poderíamos
interpretar como braguilhas abertas.
Dorotéia, ao contrário de suas
primas, desde menina via os homens e por isso se desviou, sabia que não iria
sentir a náusea na noite de núpcias e experimentou o amor, o desejo e a
maternidade, tudo o que a família (sociedade) reprimia. No entanto, ao retornar
à família, abrindo mão da sua beleza e sexualidade como forma de punição,
repete o cotidiano familiar, negando o novo.
As primas, a casa sem quartos e toda a culpa que as rodeia tornam-se o
comum, Dorotéia ao sair das regras impostas e
herdadas, torna-se o incomum. Ela, ao iniciar um ritual de purificação, ditado
pelas primas, abdica, gradativamente, de sua individualidade para se adequar e,
conseqüentemente, ser aceita. Nelson Rodrigues, em Dorotéia, reconstrói uma
sociedade autoritária e com valores totalmente deformados (as primas), através
de símbolos, que massificam e corrompem o indivíduo (Dorotéia). |
|
| |
|
Terceiro Ato |
Conceituação e Projeto final
Um texto teatral está intrinsecamente voltado à
concretização de uma encenação dramática, esta ligação que aproxima o texto
dramático da tridimensionalidade, inevitavelmente, afasta-o da condição
bidimensional. Geralmente sua proposição final ultrapassa a leitura, para
encontrar-se com as possibilidades de acontecer em cena: o leitor - ator,
diretor, espectador – o estuda, analisa, imagina ou o idealiza cenicamente no palco.
Partindo desta observação notou-se
que o projeto gráfico poderia seguir duas vertentes: a primeira seria norteada
pelos princípios funcionalistas, proposta freqüente para esse tipo de texto, deixando-o
aberto a várias interpretações, mas distante da possibilidade de aproximá-lo da
experiência cênica. Nesse caso, considerando o estudo de Gruszynski,
a solução projetual seria elaborada com uma
interferência mínima, característica da mediação invisível, visando ordem,
clareza, legibilidade, para definição de seus aspectos técnico-formais
(VILLAS-BOAS, 1998). A segunda vertente parte para uma concepção mais
experimental, cujo direcionamento gráfico possibilitaria que o leitor-espectador
se relacionasse com a história com mais intensidade e o remetesse a encenação
teatral. Ao contrário da primeira, a mediação torna-se visível, o designer
interfere interpretando a mensagem do texto proposta pelo autor.
Ao aplicar a primeira vertente neste
projeto editorial teríamos como resultado um livro que cumpriria a sua função
como objeto, contudo, implicaria em desconectá-lo da sua essência como texto
dramático, já descrita no início deste capítulo. Sendo assim, a segunda
vertente seria a mais apropriada para o livro Dorotéia, pois, possibilitaria
que o texto fosse conceituado em torno da vivacidade teatral associada ao paradigma
experimental gráfico.
Os aspectos técnico-formais aplicados no livro
possibilitaram que a subjetividade do leitor-espectador aflorasse. E, assim
como no teatro, que trabalha com a expressividade corporal e vocal em seu texto
e subtexto, o livro também pode trabalhar a expressividade através dos seus
elementos verbais e não-verbais.
Para o desenvolvimento dos aspectos
estéticos-formais dos elementos textuais do livro foi necessário um pré-estudo
de cada uma das personagens que compõem a peça, isto porque, a primeira
definição, com relação aos elementos textuais, foi a de que cada uma seria
caracterizada por uma tipografia diferente para distingüí-las e
personificá-las. Fazendo uma analogia com o teatro, a tipografia está para o
livro assim como o figurino e os adereços que compõem uma personagem estão para
o ator. (Fig. 1)
A
composição tipográfica do corpo do livro foi importante no processo de
construção deste projeto gráfico, atua como guia e dita os sinuosos ritmos do
texto dramático do começo ao fim da história. As nuances, dinâmicas, ênfases das
falas das personagens descritas pelo autor de Dorotéia, Nelson Rodrigues, são
por elas interpretadas. (Fig. 2)
|
|
 |
Fig.
1 - Tipografias adotadas para caracterizar as personagens.
|
|
 |
Fig. 2 - Composição tipográfica adotada ressalta as nuances rítmicas das falas das personagens descritas pelo autor.
|
|
 |
| Fig. 3 - O livro é a representação da personagem título Dorotéia, sendo assim, foi necessário descobrir um elemento que a personificasse: a renda; associada a sensualidade, ao feminino e belo e, ao mesmo tempo, ao casto e ao puro (véu das beatas).
|
|
 |
| Fig. 4 - Folha de rosto e apresentação do livro.
Continuação da introdução do livro que tem como elo de ligação a renda vermelha (representação da personagem título Dorortéia)
|
|
 |
| Fig. 5 - Primeiro ato - páginas abrem em três partes que se relacionam. Os três toques são caracterizados pelas duas ilustrações intercaladas com primeiras falas da peça.
|
|
 |
Fig. 6 - Segundo ato - Ilustração da personagem Das Dores na janela-balança. Os três toques são caracterizados pelas três ilustrações compostas em papel vegetal. Simula o movimento balança. |
|
 |
| Fig. 7 - Terceiro ato - Inicia-se com a presença do jarro. Os três toques são caracterizados pelas três imagens vazados em forma de jarro que serão sobrepostas. As cores utilizadas são em tons quentes (desejo=aparição do jarro).
|
|
 |
Fig. 8 - Encadernação sonfonada especial.
A estrutura sanfonada adotada para a encadernação reafirma a idéia rítmica do texto e valoriza o conceito de um único tempo e espaço (casa das viúvas) da estória através da ligação das páginas. Além disso, direciona o texto para uma leitura singular, pois, tem seu início de um lado e seu término do outro. Associando com o texto, pode-se dizer que na parte da frente o leitor conhecerá a personagem título como ela é ao chegar na casa de suas primas viúvas, e ao iniciar a leitura do verso desta parte Dorotéia já estará diferente. Mais uma vez notamos o contraste: frente e verso = Dorotéia ao chegar e Dorotéia transformada. |
|
Referências
CHARTIER, Roger. Os desafios da escrita. São Paulo: Unesp, 2002.
FREUD, Sigmund. Cinco lições de Psicanálise. In:
Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, volume XI, Rio de
Janeiro: Imago, 1909.
GRUSZYNSKI,
Anna Cláudia. Design Gráfico: do invisível ao ilegível. Rio de Janeiro: 2AB, 2000.
MUNARI, Bruno. Das coisas nascem coisas. Tradução
José Manoel de Vasconcelos. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
PASSOS, Cleusa Rios P. Dorotéia
de Nelson Rodrigues: aproximações
lacanianas. Revista USP: São Paulo, 1999, nº42, junho/agosto.
Páginas 131-141.
ROBERT Massin: ação na página
impressa. Revista Arc Design. São Paulo: Quadrifoglio,
n. 30, mai./jun. 2003, p. 62-69.
RODRIGUES, Nelson; SÁBATO, Magaldi. Teatro Completo de Nelson Rodrigues: peças míticas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1993.
VILLAS-BOAS, André. Utopia e Disciplina. Rio de Janeiro:
2AB, 1998.
|
| |
|